Excelência internacional para quem?
CAPES, Qualis, Letras, pós-graduação
Este texto resume um manuscrito atualmente em avaliação. Ele não substitui o artigo, nem deve ser lido como a versão final.
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Tenho trabalhado com uma pergunta simples sobre avaliação da pós-graduação brasileira: quando um sistema nacional certifica certos programas como de “excelência internacional”, essa categoria aparece também na circulação das publicações?
No caso brasileiro, essa pergunta passa pela CAPES. As notas 6 e 7 são reservadas a programas com doutorado que, entre outras exigências, devem ter desempenho equivalente ao de centros internacionais de excelência. O manuscrito (link para preprint acima) olha para a nota máxima, CAPES 7, e pergunta: os programas desse estrato publicam em circuitos de periódicos internacionalmente visíveis?
O caso central é Linguística/Letras, minha área. Escolhi a área justamente porque ela torna o teste interessante. O Brasil tem objetos linguísticos e literários riquíssimos, uma comunidade acadêmica consolidada e programas de altíssimo nível. Além disso, a Linguística tem muitos periódicos internacionais disponíveis e, em comparação com áreas laboratoriais, barreiras financeiras menores para publicar fora: os melhores periódicos em linguística não cobram taxas de publicação (Language, Glossa, Phonology, Linguistic Inquiry, etc.). Por fim, tratamos linguística como a ciência da linguagem, e multilinguismo certamente não é um obstáculo para especialistas que trabalham com língua. Ou seja, a área tem tudo para atingir um alto nível de internacionalização. De fato, o próprio documento de área explicita que “a Área de Linguística e Literatura encontra-se em estágio avançado de internacionalização […] principalmente no caso dos Programas nota 6 e nota 7” (CAPES, 2025, p. 24). Dada essa declaração, o nível de circulação internacional em linguística deve, portanto, ser elevado. O ponto principal que examino no manuscrito em questão é: se mesmo nesse estrato a circulação internacional for baixa, o problema dificilmente pode ser explicado apenas por falta de recursos, falta de proficiência em língua inglesa, falta de objetos relevantes, ou ausência de periódicos adequados.
1 O que foi medido
Usei dados públicos da CAPES para os períodos 2017-2020 e 2021-2024, isto é, os dois últimos ciclos em que o Qualis Periódicos ainda organizava grande parte da avaliação de publicações. A unidade de análise é o registro programa-artigo: se um artigo é reportado por um programa CAPES 7, ele entra na amostra daquele programa.
Em vez de usar o Qualis como medida de qualidade, pareei os ISSNs dos periódicos com a base de 2024 do SCImago Journal & Country Rank, baseada na Scopus. Os indicadores são simples:
- se o periódico aparece ou não no SJR;
- se aparece nos quartis Q1 ou Q2;
- se o artigo foi publicado em inglês.
Esses indicadores não medem “qualidade” de forma completa.1 Eles medem algo mais estreito: circulação e visibilidade em bases internacionais. Isso é importante porque a própria categoria CAPES 7 invoca uma comparação internacional.
2 O resultado principal
A diferença é grande. Na amostra total, há 112.602 registros de artigos de programas CAPES 7. Em Linguística/Letras, são 10.391 registros. Desse conjunto, apenas 6,3% dos artigos estão em inglês, 9,8% aparecem em periódicos indexados no SJR, 1,5% aparecem em Q1 e 5,3% aparecem em Q1/Q2 quando todos os artigos entram no denominador.
Esse último detalhe é importante. Não faz sentido calcular o percentual de Q1/Q2 apenas entre os artigos já indexados, porque a baixa indexação é justamente parte do problema: se uma área publica majoritariamente fora das bases internacionais, retirar os não indexados do denominador transforma a invisibilidade em ausência estatística.
Quando combinamos idioma e presença em Q1/Q2, a posição de Linguística/Letras fica ainda mais clara. A área aparece no canto inferior esquerdo: pouca publicação em inglês e pouca presença em Q1/Q2.
Uma objeção possível2 seria a de que “Linguística/Letras” mistura linguística, literatura e programas mais amplos de Letras. Por isso fiz uma checagem separada com um subconjunto mais estrito: apenas programas cujo nome indica explicitamente Linguística, excluindo Letras e Literatura. O resultado tem uma melhora homeopática, e não muda a conclusão. Nesse subconjunto, 9,6% dos artigos estão em inglês, 11,9% estão em periódicos SJR e 7,3% estão em Q1/Q2.
3 Onde entra o Qualis
O Qualis foi um sistema ruim de avaliação, algo descrito detalhadamente na literatura. O sistema não era uma base de indexação e não era um mapa dos periódicos importantes de uma área. Como Rita Barradas Barata explica em “Dez coisas que você deveria saber sobre o Qualis”, um periódico aparecia no Qualis porque alguém de um programa brasileiro publicou nele e essa produção foi reportada à CAPES. Ou seja, o Qualis era uma lista retrospectiva dos periódicos usados pelos programas, depois classificada administrativamente. Confesso que fiquei incrédulo quando descobri exatamente como o sistema funcionava.
Isso cria um problema de incentivo. Se uma área já publica sobretudo em circuitos locais, o universo que o Qualis classifica também será predominantemente local. Dentro desse universo, um periódico pode receber estrato alto, inclusive A1, sem ter circulação internacional comparável a periódicos centrais da área. Para estudantes e pesquisadores em formação, o sinal fica confuso: um rótulo local de prestígio passa a parecer uma medida direta de qualidade: uma revista local A1 é incomparável a uma revista internacional Q1 de prestígio na área.
No manuscrito, mostro isso com a lista A1 de Linguística/Letras em 2021-2024. Dos 544 periódicos A1 pareados por ISSN, 279 não tinham correspondência no SJR; 145 eram Q1; 68 eram Q2; 34 eram Q3; e 18 eram Q4. O mesmo rótulo A1, portanto, cobria periódicos com perfis de circulação completamente diferentes.
4 O que isso não significa
Dizendo o óbvio: o argumento não é que “todo mundo” deveria publicar em inglês: a análise acima foca apenas nos programas CAPES 6 e 7, e o topo da pesquisa de um país naturalmente não é a mesma coisa que “todo mundo”. Há excelentes razões intelectuais, políticas e sociais para publicar em português, especialmente quando o público relevante está no Brasil. De fato, não sou eu quem está dizendo que programas 6 e 7 devem ser internacionalizados: é a CAPES. Mas como não concordar com ela? O que seria da ciência se a circulação do conhecimento fosse apenas local? Como um programa pode ser internacionalizado quando ele publica 90%+ de seus artigos localmente? Por isso, uma leitura de “internacionalização” que praticamente exclua a circulação internacional da produção publicada me parece difícil de sustentar.3
Há uma diferença entre publicar localmente por escolha substantiva e publicar localmente porque o sistema de incentivos tornou esse circuito quase automático. Um objeto nacional não implica necessariamente um público nacional. Uma pesquisa sobre uma língua indígena brasileira, sobre contato linguístico no Brasil ou sobre literatura brasileira pode ter relevância internacional.4 A pergunta é se os nossos mecanismos de avaliação ajudam essa circulação a acontecer ou se acabam certificando a excelência dentro de um circuito que raramente é testado fora dele.
Este é o ponto mais geral do artigo: uma categoria de avaliação pode ser estável e institucionalmente poderosa sem estar bem alinhada com os indicadores externos que a própria categoria sugere. No caso analisado, a categoria é “excelência internacional”; o circuito observado, porém, é majoritariamente local.
O fim do Qualis Periódicos não encerra automaticamente esse problema. A partir do ciclo 2025-2028, a CAPES passa para um modelo centrado na classificação de artigos, com mais autonomia para cada área. Isso pode corrigir algumas distorções antigas. Mas também pode preservar a mesma tensão sob novos nomes, especialmente se a certificação de excelência continuar podendo ocorrer sem aumento real de publicação em inglês, indexação internacional e presença em periódicos de maior circulação.
Essa é a previsão que deixo no manuscrito: se a nova avaliação elevar a certificação formal da produção, mas os indicadores externos continuarem praticamente parados, teremos apenas trocado o rótulo. Se, ao contrário, a proporção de artigos em inglês, SJR e Q1/Q2 subir de modo substantivo nos programas mais bem avaliados, isso será sinal de que a reforma aproximou prestígio local e circulação internacional.
Por enquanto, os dados dos dois últimos ciclos do Qualis apontam para uma conclusão desconfortável: em Linguística/Letras, mesmo no topo da avaliação da CAPES, a excelência internacional certificada ainda circula muito pouco internacionalmente.
5 Perguntas frequentes
Listo aqui algumas perguntas frequentes que, às vezes, tentam explicar o padrão empírico observado. É importante salientar, contudo, que nenhum destes pontos será capaz de explicar a magnitude do que os dados mostram.
5.1 O argumento é que todos deveriam publicar em inglês?
Não. A análise trata de programas CAPES 6 e 7, isto é, do estrato que a própria CAPES associa à excelência internacional. Há muitas razões legítimas para publicar em português, especialmente quando o público relevante está no Brasil. O ponto é mais específico: quando um programa é certificado como internacionalmente excelente, espera-se que uma parte substantiva de sua produção circule em periódicos internacionalmente visíveis.
5.2 Publicar em português ou em revistas brasileiras é um problema?
Não por si só. Revistas brasileiras podem cumprir funções científicas, formativas e sociais importantes. O problema aparece quando a publicação local deixa de ser uma escolha substantiva e passa a ser o circuito quase exclusivo de legitimação da excelência. Nesse caso, a avaliação pode certificar internacionalização sem que a produção seja testada em espaços internacionais de circulação e revisão por pares.
5.3 Reconhecer revistas brasileiras como infraestrutura pública contradiz o argumento?
Não. Revistas brasileiras de acesso aberto, especialmente as vinculadas a associações científicas e universidades públicas, cumprem uma função importante e deveriam ter financiamento, profissionalização editorial e maior visibilidade. Esse ponto é compatível com o argumento do texto. A questão analisada aqui é outra: se a categoria “excelência internacional” é usada para certificar programas, é preciso perguntar se parte substantiva da produção desses programas circula também em espaços internacionalmente visíveis.
5.4 Confiança da comunidade não é um critério melhor do que métricas internacionais?
Confiança editorial é importante, mas mede outra coisa. Uma revista pode ser séria, transparente e relevante para uma comunidade nacional sem ter circulação internacional ampla. O problema surge quando confiança local, prestígio administrativo e internacionalização passam a ser tratados como equivalentes. O texto não propõe substituir avaliação qualitativa por métricas comerciais; ele usa indexação e quartis como sinais externos e limitados de circulação.
5.6 A baixa circulação internacional pode ser explicada por custos de publicação?
Não. A ausência de acordos transformativos pode dificultar a publicação em certos periódicos de acesso aberto com APCs, mas essa não é a única rota de publicação internacional. Muitos periódicos centrais da área não cobram taxas de publicação, e alguns são inclusive de acesso aberto diamante, como Glossa. Outros periódicos internacionais importantes publicam sem custo para autores no modelo tradicional. Portanto, custos podem afetar algumas escolhas específicas, mas não explicam sozinhos uma diferença tão grande entre Linguística/Letras e outras áreas.
5.7 A tendência de publicar em inglês pode ser explicada pela internacionalização na formação do pesquisador?
Não (ou quase nada). À primeira vista, os dados parecem sugerir isso: entre as áreas CAPES 7 analisadas, a proporção de docentes com doutorado no exterior anda junto com a proporção de artigos em inglês (correlação de Spearman ρ ≈ 0,65). Mas essa correlação é um artefato de composição. Quando comparamos pesquisadores dentro da mesma área (censo de docentes da CAPES de 2017–2018 pareado com as autorias de 2017–2020), ter doutorado no exterior muda muito pouco o comportamento individual: a diferença média é de cerca de 1,5 ponto percentual a mais na proporção de artigos em inglês (razão de chances ≈ 1,2). Compare isso com a distância entre áreas: 95% de artigos em inglês na Matemática contra 6% na Educação. A Química ilustra bem o ponto: cerca de 93% de sua produção CAPES 7 está em inglês, embora apenas ~18% de seus docentes tenham doutorado no exterior. Em Letras, o sinal chega a se inverter: docentes formados no exterior publicam em inglês menos do que os formados no Brasil (7% contra 11%, mas em uma amostra muito pequena). O que vemos, portanto, é quase unicamente resultado de culturas de áreas distintas: até os indivíduos com a formação mais “internacionalizada” convergem para a cultura de publicação da sua área.
5.8 O objeto local justifica publicação local?
No mais alto nível em pesquisa (CAPES 7), raramente. O objeto local naturalmente não implica necessariamente público local. Uma pesquisa sobre português brasileiro, línguas indígenas, variação linguística no Brasil ou literatura brasileira pode dialogar com debates internacionais mais amplos. A questão é se o artigo constrói essa ponte. Em muitas áreas, casos locais são justamente a base para contribuições teóricas de alcance mais amplo. Isso é o que esperaríamos de programas de elite em pesquisa.
5.9 E se a área valoriza livros, capítulos e outros produtos mais do que artigos?
Esse ponto é importante mas não é relevante para a discussão, já que a análise compara artigos com artigos. Ela não pergunta se Linguística/Letras produz menos artigos do que Química ou Biologia; pergunta qual proporção dos artigos reportados por programas CAPES 7 aparece em periódicos indexados, em inglês ou em Q1/Q2. Portanto, diferenças de gênero textual não eliminam o padrão observado nos artigos existentes.
5.10 Internacionalização não pode significar outras coisas além de publicar fora?
Pode. Cooperação internacional, redes, eventos, mobilidade e projetos conjuntos importam, e qualquer centro internacional ao redor do mundo terá esses componentes. Mas, se um programa faz pesquisa e se apresenta como internacionalizado, é razoável esperar que parte dessa pesquisa apareça também em periódicos de circulação internacional. Caso contrário, a categoria “internacionalização” fica desconectada de um de seus sinais mais diretos: a circulação pública da produção científica. É difícil defender que “internacionalização” significa tudo menos publicações internacionais…
5.11 O SJR/Scopus mede qualidade?
Em parte, sim. Indexação e quartis não medem a qualidade de cada artigo individual, mas não são sinais arbitrários: em geral, periódicos Q1 têm maior circulação, maior seletividade, maior impacto médio e maior reconhecimento internacional do que periódicos não indexados ou de quartis inferiores. Ignorar essa diferença seria tão problemático quanto tratar o quartil como medida perfeita de qualidade.
Neste texto, uso SJR de modo específico: como um sinal externo de circulação e prestígio internacional. A pergunta não é “todo artigo em Q1 é excelente e todo artigo fora do SJR é ruim?”, mas sim “a produção certificada como internacionalmente excelente aparece, em proporção substantiva, nos periódicos que a própria comunidade internacional reconhece como mais visíveis e competitivos?”.
5.12 O fim do Qualis resolve o problema?
Não necessariamente. O fim do Qualis pode corrigir distorções antigas, especialmente se a avaliação passar a olhar mais para artigos individuais e menos para rótulos de periódicos. Mas a tensão permanece: se a nova avaliação continuar certificando excelência internacional sem aumento real de publicação em inglês, indexação internacional e presença em periódicos de maior circulação, o problema terá apenas mudado de forma. Por fim, é importante lembrar que um sistema implementado gera resultados que dependem, em grande parte, das pessoas que o utilizam na prática. Na Química ou na Biologia, por exemplo, o Qualis não parece ter sido tão problemático ou limitador para a circulação internacional da pesquisa brasileira. Isso mostra que mesmo um sistema ruim não é necessariamente um obstáculo para que pesquisadores de ponta promovam suas pesquisas em periódicos de prestígio e de circulação internacional. Isso nos mostra que a grande lacuna em Letras/Linguística não pode ser atribuída simplesmente a uma métrica problemática, já que a métrica é mesma em todas as áreas.
Copyright © Guilherme Duarte Garcia
Referências
Notas de rodapé
Embora haja uma correlação elevada entre prestígio/circulação internacional e qualidade, daí a existência de quartis.↩︎
Possível, mas fraca, pois confunde objeto local com circulação local. Segundo essa objeção, seria recomendado publicar artigos sobre Tolstoy apenas em Russo. Periódicos de literatura frequentemente publicam artigos de países não anglófonos, naturalmente (discuto isso brevemente no manuscrito e retomo este ponto abaixo). Uma objeção como esta seria, portanto, muito mais reveladora sobre os pressupostos acadêmicos e científicos de quem a faz do que sobre a análise sendo criticada.↩︎
Um exemplo seria dizer que o programa é altamente internacionalizado porque envia pesquisadores para estágios de pós-doutorado no exterior; que firma parcerias com universidades de fora; que co-organiza eventos ou volumes editados com pesquisadores internacionais. A “única” coisa que o programa não faz é publicar internacionalmente. Mas se ele é internacionalizado e faz pesquisa, por que essa pesquisa raramente aparece em periódicos com alta circulação internacional…?↩︎
De fato, uma das características de pesquisas de alto impacto é justamente ir do específico para o geral, mostrando que um caso aparentemente isolado incide sobre questões mais amplas da área ou subárea — relevância que, no entanto, não é automática, mas se realiza apenas quando esse movimento de generalização é efetivamente construído.↩︎


