Excelência internacional para quem?

academia
Brazil
CAPES
Qualis
Autor
Afiliações

Université Laval

CRBLM

Data de Publicação

28 de junho de 2026

Data de Modificação

28 de junho de 2026

Palavras-chave

CAPES, Qualis, Letras, pós-graduação

Este texto resume um manuscrito atualmente em avaliação. Ele não substitui o artigo, nem deve ser lido como a versão final.

Preprint: link em breve.

Tenho trabalhado com uma pergunta simples sobre avaliação da pós-graduação brasileira: quando um sistema nacional certifica certos programas como de “excelência internacional”, essa categoria aparece também na circulação das publicações?

No caso brasileiro, essa pergunta passa pela CAPES. As notas 6 e 7 são reservadas a programas com doutorado que, entre outras exigências, devem ter desempenho equivalente ao de centros internacionais de excelência. O manuscrito olha para a nota máxima, CAPES 7, e pergunta: os programas desse estrato publicam em circuitos de periódicos internacionalmente visíveis?

O caso central é Linguística/Letras, minha área. Escolhi a área justamente porque ela torna o teste interessante. O Brasil tem objetos linguísticos e literários riquíssimos, uma comunidade acadêmica consolidada e programas de altíssimo nível. Além disso, a Linguística tem muitos periódicos internacionais disponíveis e, em comparação com áreas laboratoriais, barreiras financeiras menores para publicar fora: os melhores periódicos em linguísticas não cobram taxas de publicação (Language, Glossa, Phonology, Linguistic Inquiry, etc.). Por fim, tratamos linguística como a ciência da linguagem, e multilinguismo certamente não é um obstáculo para especialistas que trabalham com língua. Ou seja, a área tem tudo para atingir um alto nível de internacionalização. De fato, o próprio documento de área explicita que “a Área de Linguística e Literatura encontra-se em estágio avançado de internacionalização […] principalmente no caso dos Programas nota 6 e nota 7” (CAPES, 2025, p. 24). Se mesmo nesse estrato a circulação internacional for baixa, o problema dificilmente pode ser explicado apenas por falta de recursos, falta de objetos relevantes ou ausência de periódicos adequados.

O que foi medido

Usei dados públicos da CAPES para os períodos 2017-2020 e 2021-2024, isto é, os dois últimos ciclos em que o Qualis Periódicos ainda organizava grande parte da avaliação de publicações. A unidade de análise é o registro programa-artigo: se um artigo é reportado por um programa CAPES 7, ele entra na amostra daquele programa.

Em vez de usar o Qualis como medida de qualidade, pareei os ISSNs dos periódicos com a base de 2024 do SCImago Journal & Country Rank, baseada na Scopus. Os indicadores são simples:

  • se o periódico aparece ou não no SJR;
  • se aparece nos quartis Q1 ou Q2;
  • se o artigo foi publicado em inglês.

Esses indicadores não medem “qualidade” de forma completa. Eles medem algo mais estreito: circulação e visibilidade em bases internacionais. Isso é importante porque a própria categoria CAPES 7 invoca uma comparação internacional.

O resultado principal

A diferença é grande. Na amostra total, há 112.602 registros de artigos de programas CAPES 7. Em Linguística/Letras, são 10.391 registros. Desse conjunto, apenas 6,3% dos artigos estão em inglês, 9,8% aparecem em periódicos indexados no SJR, 1,5% aparecem em Q1 e 5,3% aparecem em Q1/Q2 quando todos os artigos entram no denominador.

Esse último detalhe é importante. Não faz sentido calcular o percentual de Q1/Q2 apenas entre os artigos já indexados, porque a baixa indexação é justamente parte do fenômeno. Se uma área publica majoritariamente fora das bases internacionais, retirar os não indexados do denominador transforma a invisibilidade em ausência estatística.

Gráfico de barras agrupadas comparando a proporção de artigos em periódicos indexados no SJR por área e período de avaliação. Linguística/Letras aparece muito abaixo das áreas científicas nos dois períodos.

Proporção de artigos em periódicos indexados no SJR, por área e período de avaliação. Linguística/Letras aparece com uma das menores taxas de indexação nos dois períodos.

Quando combinamos idioma e presença em Q1/Q2, a posição de Linguística/Letras fica ainda mais clara. A área aparece no canto inferior esquerdo: pouca publicação em inglês e pouca presença em Q1/Q2.

Gráfico de dispersão que cruza percentual de artigos em inglês e percentual de artigos em Q1/Q2. Linguística/Letras aparece no canto inferior esquerdo, enquanto áreas das ciências ficam no alto à direita.

Relação entre proporção de artigos em inglês e proporção de artigos em Q1/Q2. Linguística/Letras aparece no canto inferior esquerdo.

Uma objeção possível é que “Linguística/Letras” mistura linguística, literatura e programas mais amplos de Letras. Por isso fiz uma checagem separada com um subconjunto mais estrito: apenas programas cujo nome indica explicitamente Linguística, excluindo Letras e Literatura. O resultado melhora um pouco, mas não muda a conclusão. Nesse subconjunto, 9,6% dos artigos estão em inglês, 11,9% estão em periódicos SJR e 7,3% estão em Q1/Q2.

Onde entra o Qualis

O Qualis foi um sistema ruim de avaliação, algo descrito detalhadamente na literatura. O sistema não era uma base de indexação e não era um mapa dos periódicos importantes de uma área. Como Rita Barradas Barata explica em “Dez coisas que você deveria saber sobre o Qualis”, um periódico aparecia no Qualis porque alguém de um programa brasileiro publicou nele e essa produção foi reportada à CAPES. Ou seja, o Qualis era uma lista retrospectiva dos periódicos usados pelos programas, depois classificada administrativamente.

Isso cria um problema de incentivo. Se uma área já publica sobretudo em circuitos locais, o universo que o Qualis classifica também será predominantemente local. Dentro desse universo, um periódico pode receber estrato alto, inclusive A1, sem ter circulação internacional comparável a periódicos centrais da área. Para estudantes e pesquisadores em formação, o sinal fica confuso: um rótulo local de prestígio passa a parecer uma medida direta de qualidade.

No manuscrito, mostro isso com a lista A1 de Linguística/Letras em 2021-2024. Dos 544 periódicos A1 pareados por ISSN, 279 não tinham correspondência no SJR; 145 eram Q1; 68 eram Q2; 34 eram Q3; e 18 eram Q4. O mesmo rótulo A1, portanto, cobria periódicos com perfis de circulação muito diferentes.

Mapa de calor cruzando estratos Qualis 2021-2024 com status SJR 2024. Muitos periódicos A1 e A2 aparecem como não indexados, e os estratos Qualis não formam uma escada limpa de circulação internacional.

Relação entre estratos Qualis 2021-2024 e status SJR 2024 para periódicos usados em Linguística/Letras. Muitos periódicos em estratos altos não aparecem no SJR.

O que isso não significa

O argumento não é que todo mundo deveria publicar em inglês: a análise acima foca apenas nos programas CAPES 6 e 7, e o topo da pesquisa de um país naturalmente não é a mesma coisa que “todo mundo”. Há excelentes razões intelectuais, políticas e sociais para publicar em português, especialmente quando o público relevante está no Brasil. De fato, não sou eu quem está dizendo que programas 6 e 7 devem ser internacionalizados: é a CAPES. Mas como não concordar com ela? O que seria da ciência se a circulação do conhecimento fosse apenas local? Como um programa pode ser internacionalizado quando ele publica 90%+ de seus artigos localmente? É preciso um malabarismo intelectual para defender que internacionalização, na verdade, não implica publicação internacional.

Há uma diferença entre publicar localmente por escolha substantiva e publicar localmente porque o sistema de incentivos tornou esse circuito quase automático. Um objeto nacional não implica necessariamente um público nacional. Uma pesquisa sobre uma língua indígena brasileira, sobre contato linguístico no Brasil ou sobre literatura brasileira pode ter relevância internacional.1 A pergunta é se os nossos mecanismos de avaliação ajudam essa circulação a acontecer ou se acabam certificando a excelência dentro de um circuito que raramente é testado fora dele.

Este é o ponto mais geral do artigo: uma categoria de avaliação pode ser estável e institucionalmente poderosa sem estar bem alinhada com os indicadores externos que a própria categoria sugere. No caso analisado, a categoria é “excelência internacional”; o circuito observado, porém, é majoritariamente local.

O fim do Qualis Periódicos não encerra automaticamente esse problema. A partir do ciclo 2025-2028, a CAPES passa para um modelo centrado na classificação de artigos, com mais autonomia para cada área. Isso pode corrigir algumas distorções antigas. Mas também pode preservar a mesma tensão sob novos nomes, especialmente se a certificação de excelência continuar podendo ocorrer sem aumento real de publicação em inglês, indexação internacional e presença em periódicos de maior circulação.

Essa é a previsão que deixo no manuscrito: se a nova avaliação elevar a certificação formal da produção, mas os indicadores externos continuarem praticamente parados, teremos apenas trocado o rótulo. Se, ao contrário, a proporção de artigos em inglês, SJR e Q1/Q2 subir de modo substantivo nos programas mais bem avaliados, isso será sinal de que a reforma aproximou prestígio local e circulação internacional.

Por enquanto, os dados dos dois últimos ciclos do Qualis apontam para uma conclusão desconfortável: em Linguística/Letras, mesmo no topo da avaliação da CAPES, a excelência internacional certificada ainda circula pouco internacionalmente.

Copyright © Guilherme Duarte Garcia

Referências

Notas de rodapé

  1. De fato, uma das características de pesquisas de alto impacto é justamente ir do específico para o geral, mostrando que um caso aparentemente isolado incide sobre questões mais amplas da área ou subárea — relevância que, no entanto, não é automática, mas se realiza apenas quando esse movimento de generalização é efetivamente construído.↩︎