Endogamia acadêmica na pós-graduação
CAPES, endogamia, pós-graduação, mobilidade acadêmica
Uma pergunta simples sobre mobilidade acadêmica no Brasil: a cada 100 doutorandos, quantos estão estudando na mesma instituição onde se formaram antes? E, olhando para o outro extremo acadêmico, quantos docentes trabalham na mesma universidade onde fizeram o doutorado?
Essas duas perguntas medem o que a literatura chama de endogamia acadêmica (ou academic inbreeding): a tendência de pesquisadores permanecerem na instituição que os formou. Usando os dados públicos da CAPES (Dados Abertos), é possível quantificar as duas — uma para estudantes (mestrado → doutorado) e outra para docentes (doutorado → emprego).1
Estudantes: mestrado → doutorado
O censo de discentes da CAPES não tem uma coluna “instituição de origem”. Mas tem algo melhor: um identificador de pessoa (ID_PESSOA) que persiste ao longo dos anos. Isso permite reconstruir trajetórias longitudinalmente: quem aparece como titulado no mestrado em um ano e como doutorando em anos seguintes pode ser rastreado entre instituições.2 Analisei os 12 censos anuais de 2013 a 2024 (4,6 milhões de registros).
O resultado, para as coortes de ingresso no doutorado de 2017 a 2024 — todo o sistema de pós-graduação, todas as áreas e notas (234.484 ingressantes, dos quais 81% têm mestrado rastreável), e não apenas os programas CAPES 7:
A cada 100 doutorandos com mestrado rastreável, 66 ingressaram no doutorado na mesma instituição onde fizeram o mestrado.
A variação entre áreas é considerável, mas o piso é alto: nenhuma área grande fica abaixo de 50.
Alguns padrões:
- Áreas da saúde lideram (Odontologia, Farmácia, Veterinária: 76–78), possivelmente refletindo a estrutura de laboratórios e orientação contínua.
- Economia é a área menos endogâmica (50), seguida de Direito e Ciência Política.
- Linguística e Letras (68) fica no meio da distribuição, ligeiramente acima da média nacional. Endogamia estudantil não é o que distingue a área.
- Os maiores fluxos são os laços internos das grandes universidades: USP→USP (6,2 mil), UFRJ→UFRJ, UFMG→UFMG, UFRGS→UFRGS.
Docentes: onde fizeram o doutorado
Para docentes, o censo da CAPES registra diretamente a instituição de titulação. Nacionalmente (censo de docentes 2017–2018, todos os programas de pós-graduação, ~89 mil registros): 25% dos docentes trabalham na instituição onde fizeram o doutorado, 62% doutoraram-se em outra instituição brasileira e 13% no exterior.
Nos 67 programas nota 7 — o estrato que a CAPES certifica como de excelência internacional — o quadro muda:
Dois pontos saltam aos olhos:
- Programas de elite são mais endogâmicos que a média (tipicamente 40–50% contra 25% nacional). Não surpreende: eles estão nas grandes universidades formadoras de doutores, que contratam seus próprios egressos.
- Baixa endogamia tem duas causas opostas. Educação tem poucos docentes formados “em casa” porque circula dentro do Brasil (54% outra instituição brasileira); Economia, porque recruta no exterior (69%). Mesmo valor baixo, mecanismos completamente diferentes.
O primeiro ponto, aliás, não é uma peculiaridade do estrato 7: olhando para todos os programas do sistema, a endogamia docente cresce monotonicamente com a nota do programa — de 14% na nota 3 a 51% na nota 7 — enquanto a proporção de doutores formados em outra instituição brasileira despenca de 77% para 25% (e a formação no exterior sobe de 9% para 24%).
A leitura mais plausível é de oferta, não de preferência: programas de nota baixa estão tipicamente em instituições mais novas ou regionais, que formam poucos doutores — não podem contratar seus próprios egressos e importam seu corpo docente das grandes formadoras. Os programas de elite estão justamente nessas grandes formadoras, cujo mercado local de doutores é dominado pelos próprios egressos. Nesse sentido, no Brasil, a endogamia docente mede menos “paroquialismo” e mais “ser uma instituição formadora de doutores” — tanto que ela convive, na nota 7, com a maior proporção de doutorados no exterior.
Letras/Linguística, de novo, não se destaca pela endogamia (38%, meio da tabela). O que a distingue é a coluna do exterior: 14% — a segunda menor entre essas áreas, à frente apenas de Educação. O corpo docente da área circula, mas circula quase exclusivamente dentro do Brasil.
A rede de formação docente
Os fluxos doutorado → emprego formam uma rede entre as universidades. Abaixo, as 30 maiores empregadoras de doutores do sistema (que concentram 46 mil dos 89 mil registros docentes), mais um nó para o exterior. O tamanho de cada nó é o corpo docente; a cor é a proporção formada na própria instituição (quanto mais escuro, mais endogâmico); a espessura das arestas é o número de docentes formados em uma instituição e empregados em outra. Passe o mouse para os números; arraste os nós à vontade; clique em um nó para isolar sua vizinhança (clique no fundo para desfazer).
Três leituras rápidas da rede: a USP é simultaneamente a maior empregadora e a mais endogâmica (71% de doutores da casa); a UFF é o espelho oposto (18% — ela importa seu corpo docente, sobretudo da vizinha UFRJ, o maior fluxo interno do país); e o nó do exterior conecta-se justamente às grandes — USP, UFRJ, UFRGS, UnB —, confirmando que formação estrangeira e endogamia convivem no topo do sistema.
Estudantes × docentes
Colocando as duas medidas lado a lado: nacionalmente, estudantes são ~2,6 vezes mais endogâmicos que docentes (66 contra 25 por 100). A transição mestrado → doutorado é majoritariamente uma decisão de permanência; a mobilidade, quando acontece, acontece depois — na contratação. Isso é coerente com um sistema em que mudar de instituição durante a formação tem custo alto (bolsas, moradia, vínculos de orientação) e em que boa parte da seleção de doutorado favorece candidatos da casa.
E em outros países?
A medida docente tem uma literatura comparada razoável — com a ressalva de que as definições variam (fluxo de novas contratações vs. estoque de docentes; qualquer diploma vs. doutorado), então as comparações são aproximadas:
- Estados Unidos: a endogamia praticamente desapareceu das contratações desde os anos 1970–80; era 34% em 1932 e 16% trinta anos depois (Godechot et al., 2026). Estimativas atuais ficam tipicamente abaixo de 20%, e frequentemente abaixo de 10% (Horta et al., 2010).
- França: cerca de 20% dos maîtres de conférences recrutados entre 2017 e 2024 foram contratados pela universidade onde defenderam a tese — taxa em queda desde 32% em 2002 (Godechot et al., 2026).
- Espanha e Portugal: os extremos europeus. No estudo que originou o famoso “95%” espanhol (Navarro & Rivero, 2001), apenas 5% dos profesores titulares haviam começado a carreira científica em outra instituição — contra 93% de candidatos externos nos EUA, 83% no Reino Unido e 50% na França.3 Para Portugal, a estimativa citada na literatura é de 80% (Heitor & Horta 2004, apud Horta et al., 2010). Em departamentos de ecologia e zoologia, Soler (2001) mediu diretamente a proporção de docentes formados na própria universidade em 14 países europeus: Portugal lidera com 91%, seguido da Espanha com 88% — no outro extremo, Reino Unido (5%) e Alemanha (1%). No mesmo estudo, a endogamia dos países correlaciona negativamente com sua produtividade científica (ρ = −0,60).
- Japão: endogamia alta e persistente nas universidades de pesquisa (Horta et al., 2011).
- Brasil (literatura publicada): Borenstein et al. (2022), analisando 76,9 mil pesquisadores doutores em tempo integral via Lattes (todas as áreas), classificam 18,9% como endogâmicos — doutorado obtido na instituição empregadora.4 É menos do que os 25% que encontro aqui, o que é esperado: o censo da CAPES cobre apenas docentes de programas de pós-graduação, que estão justamente nas universidades formadoras de doutores. Curiosamente, os autores não encontram penalidade de produtividade para os endogâmicos no Brasil — inbreds publicam um pouco mais que non-inbreds, exceto livros — um contraponto à correlação negativa de Soler (2001) no nível dos países. Ver também de Miranda Grochocki & Cabello (2024).
Nesse quadro, o estoque docente brasileiro (25%) é moderado: muito abaixo da Península Ibérica, na vizinhança do fluxo recente francês, acima dos EUA atuais. O número realmente alto do Brasil é o estudantil (66 por 100) — e justamente para essa medida quase não há comparação internacional direta, porque as estruturas de titulação diferem (nos EUA, por exemplo, o doutorado tipicamente não pressupõe um mestrado prévio separado).
O quadro comparado sugere, aliás, uma leitura mais sóbria do que a conotação negativa do termo: a endogamia não é intrinsecamente ruim para a produtividade científica, e os resultados empíricos são contraditórios entre países. Ela é menos um vício individual e mais uma propriedade de equilíbrio do mercado acadêmico de cada sistema — onde a mobilidade é a norma, permanecer sinaliza algo; onde não há mercado propriamente dito (salários uniformes por lei, concursos, poucas instituições formadoras), permanecer é o padrão de fortes e fracos igualmente. Os dados de Borenstein et al. (2022) apontam nessa direção: os mais produtivos não são os que saem, mas os mobile inbreds — quem faz doutorado sanduíche ou pós-doutorado fora e volta — o que sugere que o ingrediente ativo é a exposição, não a saída definitiva. Se a endogamia tem custos, eles provavelmente não aparecem no volume de produção, mas na circulação de ideias e na diversidade das agendas de pesquisa — justamente o que é mais difícil de medir.
A formação explica a circulação internacional da produção?
Uma hipótese natural conectaria este post ao anterior, sobre circulação internacional da produção em Letras: áreas com mais docentes formados no exterior publicariam mais em inglês. No agregado, a correlação existe (ρ ≈ 0,65 entre proporção de doutores formados no exterior e proporção de artigos em inglês, nas áreas CAPES 7). Mas ela é um artefato de composição: comparando pesquisadores dentro da mesma área, ter doutorado no exterior muda a probabilidade de publicar em inglês em apenas ~1,5 ponto percentual — contra diferenças de ~90 pontos entre áreas. A Química publica 93% em inglês com 82% de docentes formados no Brasil. Cultura de área, não passaporte de formação, é o que governa a língua de publicação.
Notas metodológicas
- Fonte: CAPES Dados Abertos — censos de discentes (2013–2024) e de docentes (2017–2018) da Plataforma Sucupira.
- Vínculo estudantil: mestrado com situação “titulado” ligado ao ingresso posterior no doutorado via
ID_PESSOA; ano de ingresso = data de matrícula. Conversões por “mudança de nível sem defesa” (mestrado → doutorado sem defesa, mesmo programa) são contadas à parte; incluí-las eleva a taxa em ~0,3 ponto. - Censura à esquerda: mestrados concluídos antes de 2013 são invisíveis, por isso o recorte nas coortes de ingresso 2017+. Nas coortes totalmente observadas (2020–2024), a taxa é estável em ~66.
- Cobertura: “mesma instituição” exige mestrado visível no sistema CAPES (stricto sensu, Brasil). Mestrados no exterior ou lato sensu não são rastreáveis. Doutorados diretos (sem mestrado) não entram no denominador.
- Docentes: doutores, um registro por docente por instituição; comparação por sigla e nome normalizado da instituição. Docentes com doutorado no exterior são, por construção, não endogâmicos.
Copyright © Guilherme Duarte Garcia
Referências
Notas de rodapé
Uma limitação importante desde já: a trajetória graduação → pós-graduação não é mensurável com dados da CAPES. Os registros de graduação estão no Censo da Educação Superior (INEP), que não compartilha identificador de pessoa com a CAPES. O caminho alternativo seria a extração de currículos Lattes, um projeto à parte.↩︎
O identificador foi validado comparando nomes entre ciclos de coleta: 94% de concordância exata em ~19 mil vínculos; os restantes são mudanças de sobrenome (casamento) ou variações de grafia — a mesma pessoa.↩︎
O estudo mede se o endereço da primeira publicação do pesquisador coincide com seu endereço atual — uma aproximação de “começou a carreira na mesma instituição”, não literalmente o doutorado — em uma amostra de 40 docentes por país, em departamentos de ciências. É um estudo pequeno e de 2001; leia o “95%” como “a Espanha é um caso extremo”, não como estimativa precisa e atual.↩︎
Somando as quatro categorias da taxonomia deles: inbreds (só o doutorado na instituição, 11,8%), pure inbreds (graduação, mestrado e doutorado, 5,9%), silver-corded (0,8%) e mobile inbreds (0,3%).↩︎


