Endogamia acadêmica na pós-graduação

academia
Brazil
CAPES
A cada 100 doutorandos, quantos estudam na mesma instituição onde fizeram o mestrado? E quantos docentes trabalham onde fizeram o doutorado?
Autor
Afiliações

Université Laval

CRBLM

Data de Publicação

14 de julho de 2026

Palavras-chave

CAPES, endogamia, pós-graduação, mobilidade acadêmica

Uma pergunta simples sobre mobilidade acadêmica no Brasil: a cada 100 doutorandos, quantos estão estudando na mesma instituição onde se formaram antes? E, olhando para o outro extremo acadêmico, quantos docentes trabalham na mesma universidade onde fizeram o doutorado?

Essas duas perguntas medem o que a literatura chama de endogamia acadêmica (ou academic inbreeding): a tendência de pesquisadores permanecerem na instituição que os formou. Usando os dados públicos da CAPES (Dados Abertos), é possível quantificar as duas — uma para estudantes (mestrado → doutorado) e outra para docentes (doutorado → emprego).1

Estudantes: mestrado → doutorado

O censo de discentes da CAPES não tem uma coluna “instituição de origem”. Mas tem algo melhor: um identificador de pessoa (ID_PESSOA) que persiste ao longo dos anos. Isso permite reconstruir trajetórias longitudinalmente: quem aparece como titulado no mestrado em um ano e como doutorando em anos seguintes pode ser rastreado entre instituições.2 Analisei os 12 censos anuais de 2013 a 2024 (4,6 milhões de registros).

O resultado, para as coortes de ingresso no doutorado de 2017 a 2024 — todo o sistema de pós-graduação, todas as áreas e notas (234.484 ingressantes, dos quais 81% têm mestrado rastreável), e não apenas os programas CAPES 7:

A cada 100 doutorandos com mestrado rastreável, 66 ingressaram no doutorado na mesma instituição onde fizeram o mestrado.

A variação entre áreas é considerável, mas o piso é alto: nenhuma área grande fica abaixo de 50.

Gráfico de pontos com 51 áreas de avaliação da CAPES ordenadas pela endogamia mestrado-doutorado, de Economia (50 por 100) a Odontologia (78 por 100). Uma linha vertical tracejada marca a média nacional de 66. Linguística e Literatura aparece destacada em azul com 68.

Endogamia mestrado → doutorado por área de avaliação. Áreas da saúde lideram; Direito, Ciência Política e Economia têm as menores taxas. Linguística e Literatura (68) fica próxima da média nacional.

Alguns padrões:

  • Áreas da saúde lideram (Odontologia, Farmácia, Veterinária: 76–78), possivelmente refletindo a estrutura de laboratórios e orientação contínua.
  • Economia é a área menos endogâmica (50), seguida de Direito e Ciência Política.
  • Linguística e Letras (68) fica no meio da distribuição, ligeiramente acima da média nacional. Endogamia estudantil não é o que distingue a área.
  • Os maiores fluxos são os laços internos das grandes universidades: USP→USP (6,2 mil), UFRJ→UFRJ, UFMG→UFMG, UFRGS→UFRGS.

Docentes: onde fizeram o doutorado

Para docentes, o censo da CAPES registra diretamente a instituição de titulação. Nacionalmente (censo de docentes 2017–2018, todos os programas de pós-graduação, ~89 mil registros): 25% dos docentes trabalham na instituição onde fizeram o doutorado, 62% doutoraram-se em outra instituição brasileira e 13% no exterior.

Nos 67 programas nota 7 — o estrato que a CAPES certifica como de excelência internacional — o quadro muda:

Gráfico de barras empilhadas com 14 áreas mostrando a proporção de docentes que fizeram doutorado na mesma instituição onde trabalham, em outra instituição brasileira ou no exterior. Ciências Biológicas I tem 57% na mesma instituição; Economia tem 18% na mesma instituição e 69% no exterior. Linguística e Literatura: 38% mesma instituição, 48% outra instituição brasileira, 14% exterior.

Composição da origem do doutorado dos docentes dos programas CAPES 7, por área. Programas de elite são mais endogâmicos que a média nacional (25%), e as áreas variam enormemente na proporção de doutores formados no exterior.

Dois pontos saltam aos olhos:

  1. Programas de elite são mais endogâmicos que a média (tipicamente 40–50% contra 25% nacional). Não surpreende: eles estão nas grandes universidades formadoras de doutores, que contratam seus próprios egressos.
  2. Baixa endogamia tem duas causas opostas. Educação tem poucos docentes formados “em casa” porque circula dentro do Brasil (54% outra instituição brasileira); Economia, porque recruta no exterior (69%). Mesmo valor baixo, mecanismos completamente diferentes.

O primeiro ponto, aliás, não é uma peculiaridade do estrato 7: olhando para todos os programas do sistema, a endogamia docente cresce monotonicamente com a nota do programa — de 14% na nota 3 a 51% na nota 7 — enquanto a proporção de doutores formados em outra instituição brasileira despenca de 77% para 25% (e a formação no exterior sobe de 9% para 24%).

Gráfico de barras empilhadas por conceito CAPES (3 a 7) mostrando a origem do doutorado dos docentes. A proporção formada na mesma instituição cresce de 14% na nota 3 para 51% na nota 7; a formada em outra instituição brasileira cai de 77% para 25%; a formada no exterior sobe de 9% para 24%.

Endogamia docente por conceito CAPES do programa. Quanto maior a nota, maior a proporção de docentes formados na própria instituição — e menor a proporção formada em outra instituição brasileira.

A leitura mais plausível é de oferta, não de preferência: programas de nota baixa estão tipicamente em instituições mais novas ou regionais, que formam poucos doutores — não podem contratar seus próprios egressos e importam seu corpo docente das grandes formadoras. Os programas de elite estão justamente nessas grandes formadoras, cujo mercado local de doutores é dominado pelos próprios egressos. Nesse sentido, no Brasil, a endogamia docente mede menos “paroquialismo” e mais “ser uma instituição formadora de doutores” — tanto que ela convive, na nota 7, com a maior proporção de doutorados no exterior.

Letras/Linguística, de novo, não se destaca pela endogamia (38%, meio da tabela). O que a distingue é a coluna do exterior: 14% — a segunda menor entre essas áreas, à frente apenas de Educação. O corpo docente da área circula, mas circula quase exclusivamente dentro do Brasil.

A rede de formação docente

Os fluxos doutorado → emprego formam uma rede entre as universidades. Abaixo, as 30 maiores empregadoras de doutores do sistema (que concentram 46 mil dos 89 mil registros docentes), mais um nó para o exterior. O tamanho de cada nó é o corpo docente; a cor é a proporção formada na própria instituição (quanto mais escuro, mais endogâmico); a espessura das arestas é o número de docentes formados em uma instituição e empregados em outra. Passe o mouse para os números; arraste os nós à vontade; clique em um nó para isolar sua vizinhança (clique no fundo para desfazer).

mais endogâmica menos endogâmica exterior (agregado de muitas instituições — escala de cor não se aplica)  ·  tamanho = nº de docentes  ·  aresta = fluxo formação → emprego (≥ 25 docentes)
Dados: CAPES Dados Abertos, censo de docentes 2017–2018, doutores, um registro por docente por instituição. Endogamia (autolaços) não é desenhada como aresta — está na cor do nó. Apenas fluxos com ≥ 25 docentes são desenhados: ao clicar em um nó, os nós esmaecidos podem ainda assim ter fluxos pequenos (< 25) com o nó selecionado. IES fora do top-30 não aparecem como nós; o tooltip de cada universidade traz o balanço completo de origem (soma 100%).

Três leituras rápidas da rede: a USP é simultaneamente a maior empregadora e a mais endogâmica (71% de doutores da casa); a UFF é o espelho oposto (18% — ela importa seu corpo docente, sobretudo da vizinha UFRJ, o maior fluxo interno do país); e o nó do exterior conecta-se justamente às grandes — USP, UFRJ, UFRGS, UnB —, confirmando que formação estrangeira e endogamia convivem no topo do sistema.

Estudantes × docentes

Colocando as duas medidas lado a lado: nacionalmente, estudantes são ~2,6 vezes mais endogâmicos que docentes (66 contra 25 por 100). A transição mestrado → doutorado é majoritariamente uma decisão de permanência; a mobilidade, quando acontece, acontece depois — na contratação. Isso é coerente com um sistema em que mudar de instituição durante a formação tem custo alto (bolsas, moradia, vínculos de orientação) e em que boa parte da seleção de doutorado favorece candidatos da casa.

E em outros países?

A medida docente tem uma literatura comparada razoável — com a ressalva de que as definições variam (fluxo de novas contratações vs. estoque de docentes; qualquer diploma vs. doutorado), então as comparações são aproximadas:

  • Estados Unidos: a endogamia praticamente desapareceu das contratações desde os anos 1970–80; era 34% em 1932 e 16% trinta anos depois (Godechot et al., 2026). Estimativas atuais ficam tipicamente abaixo de 20%, e frequentemente abaixo de 10% (Horta et al., 2010).
  • França: cerca de 20% dos maîtres de conférences recrutados entre 2017 e 2024 foram contratados pela universidade onde defenderam a tese — taxa em queda desde 32% em 2002 (Godechot et al., 2026).
  • Espanha e Portugal: os extremos europeus. No estudo que originou o famoso “95%” espanhol (Navarro & Rivero, 2001), apenas 5% dos profesores titulares haviam começado a carreira científica em outra instituição — contra 93% de candidatos externos nos EUA, 83% no Reino Unido e 50% na França.3 Para Portugal, a estimativa citada na literatura é de 80% (Heitor & Horta 2004, apud Horta et al., 2010). Em departamentos de ecologia e zoologia, Soler (2001) mediu diretamente a proporção de docentes formados na própria universidade em 14 países europeus: Portugal lidera com 91%, seguido da Espanha com 88% — no outro extremo, Reino Unido (5%) e Alemanha (1%). No mesmo estudo, a endogamia dos países correlaciona negativamente com sua produtividade científica (ρ = −0,60).
  • Japão: endogamia alta e persistente nas universidades de pesquisa (Horta et al., 2011).
  • Brasil (literatura publicada): Borenstein et al. (2022), analisando 76,9 mil pesquisadores doutores em tempo integral via Lattes (todas as áreas), classificam 18,9% como endogâmicos — doutorado obtido na instituição empregadora.4 É menos do que os 25% que encontro aqui, o que é esperado: o censo da CAPES cobre apenas docentes de programas de pós-graduação, que estão justamente nas universidades formadoras de doutores. Curiosamente, os autores não encontram penalidade de produtividade para os endogâmicos no Brasil — inbreds publicam um pouco mais que non-inbreds, exceto livros — um contraponto à correlação negativa de Soler (2001) no nível dos países. Ver também de Miranda Grochocki & Cabello (2024).

Nesse quadro, o estoque docente brasileiro (25%) é moderado: muito abaixo da Península Ibérica, na vizinhança do fluxo recente francês, acima dos EUA atuais. O número realmente alto do Brasil é o estudantil (66 por 100) — e justamente para essa medida quase não há comparação internacional direta, porque as estruturas de titulação diferem (nos EUA, por exemplo, o doutorado tipicamente não pressupõe um mestrado prévio separado).

O quadro comparado sugere, aliás, uma leitura mais sóbria do que a conotação negativa do termo: a endogamia não é intrinsecamente ruim para a produtividade científica, e os resultados empíricos são contraditórios entre países. Ela é menos um vício individual e mais uma propriedade de equilíbrio do mercado acadêmico de cada sistema — onde a mobilidade é a norma, permanecer sinaliza algo; onde não há mercado propriamente dito (salários uniformes por lei, concursos, poucas instituições formadoras), permanecer é o padrão de fortes e fracos igualmente. Os dados de Borenstein et al. (2022) apontam nessa direção: os mais produtivos não são os que saem, mas os mobile inbreds — quem faz doutorado sanduíche ou pós-doutorado fora e volta — o que sugere que o ingrediente ativo é a exposição, não a saída definitiva. Se a endogamia tem custos, eles provavelmente não aparecem no volume de produção, mas na circulação de ideias e na diversidade das agendas de pesquisa — justamente o que é mais difícil de medir.

A formação explica a circulação internacional da produção?

Uma hipótese natural conectaria este post ao anterior, sobre circulação internacional da produção em Letras: áreas com mais docentes formados no exterior publicariam mais em inglês. No agregado, a correlação existe (ρ ≈ 0,65 entre proporção de doutores formados no exterior e proporção de artigos em inglês, nas áreas CAPES 7). Mas ela é um artefato de composição: comparando pesquisadores dentro da mesma área, ter doutorado no exterior muda a probabilidade de publicar em inglês em apenas ~1,5 ponto percentual — contra diferenças de ~90 pontos entre áreas. A Química publica 93% em inglês com 82% de docentes formados no Brasil. Cultura de área, não passaporte de formação, é o que governa a língua de publicação.

Notas metodológicas

  • Fonte: CAPES Dados Abertos — censos de discentes (2013–2024) e de docentes (2017–2018) da Plataforma Sucupira.
  • Vínculo estudantil: mestrado com situação “titulado” ligado ao ingresso posterior no doutorado via ID_PESSOA; ano de ingresso = data de matrícula. Conversões por “mudança de nível sem defesa” (mestrado → doutorado sem defesa, mesmo programa) são contadas à parte; incluí-las eleva a taxa em ~0,3 ponto.
  • Censura à esquerda: mestrados concluídos antes de 2013 são invisíveis, por isso o recorte nas coortes de ingresso 2017+. Nas coortes totalmente observadas (2020–2024), a taxa é estável em ~66.
  • Cobertura: “mesma instituição” exige mestrado visível no sistema CAPES (stricto sensu, Brasil). Mestrados no exterior ou lato sensu não são rastreáveis. Doutorados diretos (sem mestrado) não entram no denominador.
  • Docentes: doutores, um registro por docente por instituição; comparação por sigla e nome normalizado da instituição. Docentes com doutorado no exterior são, por construção, não endogâmicos.

Copyright © Guilherme Duarte Garcia

Referências

Borenstein, D., Perlin, M. S., & Imasato, T. (2022). The academic inbreeding controversy: Analysis and evidence from Brazil. Journal of Informetrics, 16(2), 101287. https://doi.org/10.1016/j.joi.2022.101287
de Miranda Grochocki, L. F., & Cabello, A. F. (2024). Outlining inbreeding in the Brazilian higher education system. Higher Education Quarterly, 78(1), 20–46. https://doi.org/10.1111/hequ.12440
Godechot, O., Issiakou, R., Renisio, Y., & Rougier, A. (2026). Academic inbreeding: New estimates. Books & Ideas. https://booksandideas.net/Academic-inbreeding-new-estimates
Horta, H., Sato, M., & Yonezawa, A. (2011). Academic inbreeding: Exploring its characteristics and rationale in Japanese universities using a qualitative perspective. Asia Pacific Education Review, 12(1), 35–44. https://doi.org/10.1007/s12564-010-9126-9
Horta, H., Veloso, F. M., & Grediaga, R. (2010). Navel gazing: Academic inbreeding and scientific productivity. Management Science, 56(3), 414–429. https://doi.org/10.1287/mnsc.1090.1109
Navarro, A., & Rivero, A. (2001). High rate of inbreeding in Spanish universities. Nature, 410, 14. https://doi.org/10.1038/35065259
Soler, M. (2001). How inbreeding affects productivity in Europe. Nature, 411, 132. https://doi.org/10.1038/35075637

Notas de rodapé

  1. Uma limitação importante desde já: a trajetória graduação → pós-graduação não é mensurável com dados da CAPES. Os registros de graduação estão no Censo da Educação Superior (INEP), que não compartilha identificador de pessoa com a CAPES. O caminho alternativo seria a extração de currículos Lattes, um projeto à parte.↩︎

  2. O identificador foi validado comparando nomes entre ciclos de coleta: 94% de concordância exata em ~19 mil vínculos; os restantes são mudanças de sobrenome (casamento) ou variações de grafia — a mesma pessoa.↩︎

  3. O estudo mede se o endereço da primeira publicação do pesquisador coincide com seu endereço atual — uma aproximação de “começou a carreira na mesma instituição”, não literalmente o doutorado — em uma amostra de 40 docentes por país, em departamentos de ciências. É um estudo pequeno e de 2001; leia o “95%” como “a Espanha é um caso extremo”, não como estimativa precisa e atual.↩︎

  4. Somando as quatro categorias da taxonomia deles: inbreds (só o doutorado na instituição, 11,8%), pure inbreds (graduação, mestrado e doutorado, 5,9%), silver-corded (0,8%) e mobile inbreds (0,3%).↩︎