Como se mede impacto acadêmico?
Um guia para estudantes de Linguística
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Imagine dois pesquisadores da mesma área. Ambos têm 500 citações no Google Scholar. À primeira vista, os dois parecem ter exatamente o mesmo impacto. Agora abrimos o Semantic Scholar: o primeiro tem 400 citações; o segundo, menos de 100. Afinal, qual é o número correto?
Possivelmente, todos eles.
Uma contagem de citações não existe no vácuo. Ela é produzida por uma base, e cada base decide de maneiras diferentes quais documentos existem, quais versões pertencem ao mesmo trabalho, quais trabalhos pertencem a cada autor e quais referências contam como citações. Por isso, dizer apenas que alguém “tem 500 citações” é uma informação incompleta. Quinhentas citações onde? Contadas como? Vindas de quê?
Quero fazer duas coisas neste texto. Primeiro, explicar como funcionam ferramentas como Google Scholar e Semantic Scholar e conceitos como citação, índice h, indexação e quartis. Depois, mostrar por que entender esses mecanismos muda a maneira como avaliamos impacto acadêmico, especialmente em uma área cuja produção circula predominantemente dentro do Brasil.
O exemplo dos 500 contra 100 é ilustrativo; não é uma estimativa da diferença média entre as duas bases.1 Mas o fenômeno que ele representa é bastante real: o mesmo pesquisador pode ter perfis bibliométricos radicalmente diferentes dependendo de onde procuramos. Entender essa diferença é o primeiro passo para entender o que chamamos, às vezes com confiança demais, de “impacto”.
O que é uma citação?
Uma citação ocorre quando um documento faz referência a outro. Parece simples, mas há pelo menos três perguntas escondidas nessa definição:
- O documento que cita foi encontrado pela base? Uma tese depositada em um repositório brasileiro pode aparecer no Google Scholar e estar ausente de outras bases.
- A referência foi reconhecida corretamente? Título, nomes, ano e periódico podem ter erros ou variações.
- A referência foi ligada ao documento correto? Um preprint, a versão final publicada e uma cópia no site do autor podem ser três registros ou um único trabalho, dependendo da base.
Portanto, quando uma plataforma informa que um artigo recebeu 30 citações, ela não está consultando uma lista universal e completa de toda a produção acadêmica. Está dizendo algo mais preciso: entre os documentos que esta plataforma encontrou e processou, 30 registros foram ligados a este artigo.
Além disso, ser citado não é necessariamente ser elogiado. Um trabalho pode ser citado porque é fundamental, porque fornece um método, porque representa uma posição a ser criticada ou porque contém um erro conhecido. Em muitos casos, uma referência aparece apenas como parte de uma lista. Uma contagem mede atenção registrada, não a natureza dessa atenção.
Isso não torna a citação inútil. Se milhares de pesquisadores independentes usam, discutem e desenvolvem um trabalho, há um sinal claro de influência acadêmica. O problema começa quando damos ao número uma interpretação que ele sozinho não sustenta.
Google Scholar: encontra muito, inclusive o que não deveria
O Google Scholar é provavelmente a ferramenta bibliométrica mais conhecida por estudantes. Ele é gratuito, fácil de usar e tem uma grande vantagem: procura produção acadêmica em uma variedade enorme de lugares. Além de artigos em periódicos, encontra livros, capítulos, teses, dissertações, trabalhos em anais, preprints e cópias depositadas em repositórios institucionais.
Eu mesmo uso o Google Scholar com frequência. Ele é uma excelente ferramenta de busca e uma maneira rápida de descobrir quem citou um trabalho. Só não o trato como um currículo auditado ou como uma medida pronta de qualidade.
Para áreas em que livros e capítulos são importantes, e para pesquisadores que publicam em português ou em periódicos fora das grandes bases comerciais, essa cobertura ampla é genuinamente útil. Um índice restrito a um conjunto selecionado de periódicos deixaria de fora uma parte real da produção e de sua recepção. O Google Scholar permite encontrar essa atividade.
A mesma abertura, no entanto, produz ruído. A plataforma pode:
- atribuir ao perfil de uma pessoa um trabalho escrito por outra com nome semelhante;
- manter como separados registros que são versões do mesmo trabalho;
- fundir trabalhos diferentes;
- contar documentos cuja natureza acadêmica é duvidosa;
- associar uma referência ao trabalho errado;
- deixar no perfil artigos incorretos até que o próprio pesquisador os remova.
Esse último ponto é importante. Um perfil do Google Scholar não é um currículo oficialmente verificado. Ele combina decisões automáticas da plataforma com a manutenção feita pelo proprietário. O autor pode permitir atualizações automáticas, revisar sugestões ou corrigir o perfil manualmente. Se um artigo alheio for incorporado e ninguém o remover, as citações daquele artigo passam a compor os totais mostrados no perfil e podem inclusive alterar o índice h.
Antes de usar o número de citações ou o índice h de alguém, olhe a lista de publicações. Há trabalhos de homônimos? Duplicatas? Títulos estranhos à área da pessoa? Um perfil com manutenção cuidadosa é mais confiável, mas continua dependendo das regras e da cobertura do Google Scholar. Nomes semelhantes tornam atribuições erradas especialmente comuns.
Por que o Semantic Scholar mostra outro número?
O Semantic Scholar ainda é pouco conhecido no Brasil. Ele também é uma base ampla e automática, não um catálogo pequeno de periódicos escolhidos por uma comissão. Contudo, sua cobertura, seus modelos de identificação de autores e seu grafo de citações são diferentes. Na prática, seus perfis frequentemente são mais conservadores que os do Google Scholar, sobretudo para livros, capítulos, documentos em repositórios, publicações locais e parte da produção não anglófona.
Isso gera duas possibilidades quando uma publicação não aparece:
- ela foi publicada e citada, mas o Semantic Scholar não encontrou ou não vinculou corretamente os documentos envolvidos;
- sua circulação ocorreu principalmente em tipos de documentos e veículos que quase não entram no grafo da base.
As duas coisas são falhas de cobertura do ponto de vista de uma bibliografia completa. Mas a segunda também pode ser substantivamente informativa. Se quase todas as citações de um pesquisador vêm de teses brasileiras, capítulos locais e periódicos pouco conectados às bases internacionais, a diferença entre plataformas revela algo sobre onde o trabalho circula.
Semantic Scholar não é, portanto, um detector automático de qualidade. Um artigo excelente pode estar ausente, e um artigo péssimo pode estar presente. A comparação é útil porque as bases iluminam partes diferentes do sistema acadêmico: o Google Scholar captura um circuito muito amplo; uma base mais conservadora captura um subconjunto mais estruturado desse circuito.
Um teste de realidade assimétrico
Aqui está a assimetria mais importante deste texto. Ter poucas citações no Semantic Scholar não prova que um pesquisador tem pouco impacto, porque a base pode deixar de fora trabalhos e citações legítimas. Mas ter muitas citações ali é uma evidência mais forte de circulação ampla: para o número crescer, uma parte considerável da produção e dos documentos que a citam precisa estar integrada a um grafo bibliográfico mais estruturado.
Em outras palavras:
- um número baixo no Semantic Scholar é ambíguo: pode refletir pouco impacto, circulação predominantemente local ou simplesmente cobertura insuficiente;
- um número alto no Semantic Scholar é potencialmente muito informativo: é mais difícil produzi-lo apenas com duplicatas, trabalhos de homônimos, documentos dispersos e citações restritas a um circuito local pouco indexado;
- um número alto no Google Scholar exige inspeção: pode representar influência extraordinária, mas também pode ser inflado por atribuições erradas, versões duplicadas e uma longa cauda de documentos de circulação muito limitada.
É nesse sentido que considero o Semantic Scholar um teste de realidade. Seu viés não é universalmente “melhor”: ele subestima justamente parte da produção brasileira que gostaríamos de tornar visível. Mas, para a pergunta específica “este trabalho entrou de forma substantiva no circuito acadêmico mais amplamente indexado?”, a perda de cobertura em troca de registros mais estruturados pode ser útil. Um perfil impressionante no Semantic Scholar continua exigindo análise, mas é difícil reduzi-lo a uma fantasia bibliométrica. Um perfil impressionante apenas no Google Scholar pode ser perfeitamente legítimo. Também pode se desfazer quando olhamos as publicações, as fontes das citações e a circulação que existe por trás do total.
A diferença, sozinha, não diagnostica ninguém
Considere novamente a diferença hipotética de 400 citações no Google Scholar contra 100 no Semantic Scholar. Dois pesquisadores com exatamente esses números podem ter perfis completamente distintos:
- um pode publicar principalmente em periódicos locais, ser citado dentro do mesmo circuito e quase não participar da literatura internacional;
- outro pode ter trabalhos atribuídos incorretamente, duplicatas ou citações produzidas por documentos de qualidade duvidosa;
- um terceiro pode publicar excelentes artigos internacionais, mas também produzir livros, capítulos, software, bases de dados ou trabalhos em anais que o Semantic Scholar captura mal.
O contraste 400 contra 100, por si só, é compatível com todos esses cenários. Ele não é uma medida de internacionalização e muito menos uma nota de qualidade. Sua função é provocar a próxima pergunta: quais publicações e quais citações explicam a diferença?
Para responder, precisamos decompor o total. Primeiro, separamos os trabalhos encontrados pelas duas bases daqueles que aparecem em apenas uma. Depois, comparamos gêneros de publicação, periódicos, quartis e fontes das citações. Se os artigos internacionais aparecem nas duas bases com contagens semelhantes, enquanto a diferença vem de software, livros e capítulos, temos uma explicação. Se quase toda a diferença vem de periódicos locais, teses da mesma rede ou trabalhos atribuídos incorretamente, temos outra completamente diferente.
Há ainda outras alternativas. Scopus e Web of Science são bases comerciais com seleção explícita de fontes. O Web of Science, por exemplo, publica critérios editoriais para decidir quais periódicos entram em suas coleções. OpenAlex oferece um grafo acadêmico aberto e amplo. Nenhuma dessas bases é completa, e a cobertura varia muito entre áreas, idiomas, países e gêneros de publicação (Mongeon & Paul-Hus, 2016; Petr et al., 2021).
| Base | Característica útil | Limitação importante |
|---|---|---|
| Google Scholar | Cobertura muito ampla, inclusive teses, livros, capítulos e repositórios | Registros opacos, duplicatas e atribuições incorretas |
| Semantic Scholar | Grafo aberto, perfis e citações mais estruturados | Cobertura desigual, especialmente fora de certos circuitos e idiomas |
| Scopus | Fontes selecionadas e metadados estruturados | Assinatura e cobertura seletiva |
| Web of Science | Coleções curadas e critérios editoriais explícitos | Assinatura e cobertura seletiva |
| OpenAlex | Dados abertos e reutilizáveis | Também depende de agregação e identificação automáticas |
O ponto não é eleger uma base verdadeira. É saber qual pergunta cada uma consegue responder.
Índice h: um número simples sobre uma base imperfeita
O índice h tenta combinar volume de produção e citações. Um pesquisador tem índice h igual a 10 quando possui pelo menos 10 trabalhos com 10 ou mais citações cada. Para chegar a h = 20, precisa ter pelo menos 20 trabalhos com 20 citações cada. Um único artigo com 2 mil citações não é suficiente.
Considere esta lista de citações, ordenada da maior para a menor:
| Publicação | Citações |
|---|---|
| 1 | 40 |
| 2 | 21 |
| 3 | 12 |
| 4 | 8 |
| 5 | 4 |
| 6 | 2 |
Nesse exemplo, o índice é h = 4: há quatro publicações com pelo menos quatro citações. A quinta tem apenas quatro e, portanto, não permite chegar a h = 5.
O índice h não informa quem citou o trabalho, onde a citação apareceu ou por que ela foi feita. Uma autocitação conta da mesma forma que uma citação feita por um grupo de pesquisa independente. Uma citação de um amigo, colega, coautor ou orientando produz o mesmo incremento que uma citação feita por alguém sem relação com o autor. Salvo quando uma análise aplica filtros adicionais, o cálculo não distingue nenhuma dessas situações.
O veículo que contém a citação tampouco faz diferença. Um artigo péssimo em um periódico péssimo e um artigo excelente em um dos principais periódicos da área acrescentam exatamente uma citação ao trabalho citado. O mesmo vale para uma tese, um capítulo ou qualquer outro documento reconhecido pela base. Para o índice h, a origem e a qualidade da atenção desaparecem; resta apenas a contagem.
O Semantic Scholar tenta recuperar parte dessa informação com as chamadas citações altamente influentes (Highly Influential Citations). Um modelo de aprendizado de máquina examina fatores como o contexto ao redor da referência para estimar se o trabalho citado teve papel substantivo no artigo que o cita. A plataforma também classifica certas citações conforme seu uso, distinguindo, por exemplo, referências a resultados, métodos e conhecimento de fundo. Acho essa uma tentativa interessante de separar influência de mera contagem.
Ainda assim, é uma solução parcial. A classificação depende de acesso ao texto completo, pode conter erros e não avalia diretamente a qualidade de nenhum dos dois artigos. Além disso, ela não transforma o índice h comum em uma métrica ponderada: para calcular o índice, as citações continuam valendo igualmente. O próprio Semantic Scholar desaconselha usar o índice h como medida comparativa ou abrangente de impacto.
Isso também significa que receber uma citação não certifica a qualidade do trabalho citado. A referência pode ser central para o argumento, superficial, negativa, protocolar ou simplesmente um item em uma longa lista. Se quisermos saber se uma pesquisa realmente influenciou a área, precisamos abrir os documentos que a citam e examinar o que fizeram com ela.
A simplicidade explica parte da popularidade do índice. Mas o número herda todos os problemas da base que o calcula. Se a publicação de 40 citações pertence a um homônimo e for removida, o índice pode cair. Se uma base não indexa vários capítulos ou artigos locais, o índice também será menor. É por isso que a mesma pessoa pode ter um h no Google Scholar, outro na Scopus e outro no Semantic Scholar. Não existe um índice h independente da base.
Há outras limitações. O índice cresce com o tempo de carreira, varia enormemente entre áreas e não distingue autoria individual de trabalhos com muitos coautores. É útil como resumo descritivo dentro de comparações cuidadosamente definidas; é ruim como nota universal de qualidade.2
Artigo, periódico e pesquisador não são a mesma coisa
Boa parte da confusão bibliométrica nasce da mistura entre níveis diferentes. Uma contagem de citações pode se referir a um artigo. O índice h resume um conjunto de publicações atribuído a um pesquisador. O SJR e o fator de impacto descrevem padrões médios de periódicos. O Qualis, por sua vez, foi um instrumento administrativo da avaliação brasileira.
| Nível | Pergunta | Exemplos de indicador |
|---|---|---|
| Artigo | Este trabalho foi citado? | número de citações |
| Pesquisador | Como as citações se distribuem entre seus trabalhos? | índice h, total de citações |
| Periódico | Qual é o perfil médio de citação do veículo? | SJR, CiteScore, fator de impacto |
| Programa | O que sua produção e formação indicam coletivamente? | indicadores da CAPES |
| Sociedade | A pesquisa mudou políticas, práticas ou a compreensão pública? | raramente capturado pelos itens acima |
O prestígio do periódico não determina sozinho a qualidade de cada artigo, mas isso não torna os veículos intercambiáveis. Periódicos centrais e altamente seletivos podem publicar trabalhos abaixo de seu padrão habitual. Ainda assim, esses trabalhos passaram por um processo de seleção e escrutínio muito diferente daquele encontrado, em média, em veículos de baixa seletividade e circulação restrita. Em termos de distribuição, mesmo a faixa inferior dos grandes periódicos tende a ficar acima do centro da distribuição de muitos veículos locais brasileiros. As exceções existem dos dois lados, mas não são simétricas: a existência de um artigo fraco em um grande periódico não apaga a enorme diferença entre os conjuntos. O veículo fornece evidência probabilística, não um veredito sobre cada texto.
Indexação, métricas e quartis
Um periódico é indexado quando seus registros são incluídos em uma base. Isso exige muito mais do que o periódico aparecer em uma busca comum na internet. Bases selecionadas avaliam aspectos como regularidade, revisão por pares, práticas editoriais, metadados, referências e composição editorial. Depois da inclusão, artigos, autores e referências podem ser incorporados ao grafo de citações daquela base.
Indexação e impacto também não são sinônimos. Primeiro, a base define quais periódicos acompanha. Depois, métricas calculadas a partir desse universo podem comparar sua circulação. Entre as mais conhecidas estão:
- SJR (SCImago Journal Rank), calculado com dados da Scopus e com pesos diferentes para as citações recebidas;
- CiteScore, também baseado na Scopus;
- JIF (Journal Impact Factor), publicado no Journal Citation Reports a partir de dados do Web of Science.
Os quartis dividem os periódicos de uma categoria ordenada em quatro grupos: Q1 corresponde ao quarto superior; Q4, ao quarto inferior. Parece simples, mas um periódico não é simplesmente “Q1” para sempre. É preciso perguntar:
- em qual base e métrica?
- em qual ano?
- em qual categoria?
O mesmo periódico pode estar em Q1 em uma categoria e em Q2 em outra. Pode mudar de quartil de um ano para o seguinte. E o Q1 do SJR não é automaticamente o Q1 do JCR. Por isso, prefiro uma formulação completa: “Q1 no SJR de 2024, na categoria Language and Linguistics”, por exemplo.
Ferramentas como a extensão ExCITATION tornam essa informação mais visível ao acrescentar rankings de periódicos aos resultados do Google Scholar. Isso é útil porque obriga o usuário a olhar além do número bruto de citações. Mas a extensão não transforma o ranking do periódico em avaliação automática do artigo: ela acrescenta contexto, não um selo de verdade.3
Voltemos às 500 citações
Agora podemos retornar aos dois pesquisadores do início. Uma contagem relativamente semelhante entre bases sugere que boa parte das citações está presente no grafo mais estruturado do Semantic Scholar. Uma grande queda não fornece um diagnóstico; ela indica que o total precisa ser decomposto por publicação, formato, fonte e autoria, como vimos acima.
Ainda assim, a composição importa. Um circuito pode produzir muitas citações sem produzir muita circulação. Se o trabalho de um pesquisador é citado quase exclusivamente dentro do mesmo país, da mesma rede intelectual e dos mesmos tipos de veículo, isso representa uma forma real de atenção, mas não equivale a influência ampla na área.
Há, portanto, pelo menos três perguntas diferentes:
- Produtividade: quanto essa pessoa publicou?
- Visibilidade: quantas pessoas ou documentos encontraram e citaram essa produção?
- Circulação: até onde essa produção chegou, e em quais debates passou a participar?
Nenhum número isolado responde às três.
O problema em Linguística no Brasil
Essa distinção é especialmente importante para pós-graduandos brasileiros. Um aluno conhece primeiro o universo ao redor de seu programa: os professores que ministram suas disciplinas, as revistas em que eles publicam, os autores citados nas bibliografias locais e os congressos que todos frequentam. É natural que os nomes mais visíveis nesse universo pareçam representar o topo da área como um todo. Como o aluno poderia saber o que existe fora de um circuito ao qual ainda não teve acesso?
Ao abrir o Google Scholar de um orientador, ele talvez veja centenas ou milhares de citações. O número parece oferecer uma confirmação objetiva do prestígio que o ambiente já atribui àquela pessoa. Mas, sem comparação, o estudante não sabe quanto desse impacto depende de produção local, de capítulos, de teses e dissertações, de periódicos pouco indexados ou da própria rede acadêmica do pesquisador. Tampouco sabe como pesquisadores centrais da mesma subárea circulam em um universo internacional mais amplo.
Isso se conecta diretamente a dois padrões que discuti em outros textos. No Brasil, a permanência entre mestrado e doutorado na mesma instituição é muito alta. Ao mesmo tempo, mesmo os programas de Linguística/Letras certificados como de excelência internacional publicam muito pouco em periódicos de circulação internacional: na amostra analisada, apenas 9,8% dos artigos aparecem no SJR e 5,3% estão em Q1/Q2 quando toda a produção entra no denominador.
Os três fenômenos dizem respeito a tipos diferentes de circulação:
- circulação de pessoas: onde estudantes se formam e onde docentes trabalham;
- circulação de publicações: onde a pesquisa é publicada e quem consegue encontrá-la;
- circulação de atenção: quem cita essa pesquisa e em quais debates ela passa a existir.
Quando a formação é endogâmica, a publicação é predominantemente local e as citações também circulam dentro do mesmo sistema, pode surgir um circuito de prestígio bastante estável. Pesquisadores publicam em veículos reconhecidos localmente, citam uns aos outros, orientam teses que reproduzem a mesma bibliografia e acumulam citações no Google Scholar. Nada disso exige citações falsas. O problema está na conclusão: prestígio dentro de um circuito não demonstra automaticamente impacto para além dele.
Poderíamos chamar esse fenômeno de endogamia de citações: a atenção acadêmica circula principalmente dentro da rede que a produz. O termo deve ser usado com cautela, pois demonstrá-lo empiricamente exigiria mapear a origem institucional, geográfica e bibliográfica das citações. Ainda assim, ele descreve uma hipótese importante. A endogamia acadêmica talvez não limite apenas a mobilidade das pessoas; pode também estreitar a circulação das ideias.
Há excelentes razões para publicar certos trabalhos em português, em revistas brasileiras, em livros e em capítulos. Alguns têm um público substantivamente local; outros cumprem funções didáticas, culturais ou sociais que bases internacionais capturam mal. Isso não significa, contudo, que publicar predominantemente dentro de um circuito local seja uma escolha neutra em qualquer posição acadêmica.
Minha posição aqui é simples: para pesquisadores de universidades de ponta, sobretudo de programas que reivindicam excelência internacional, publicar quase exclusivamente em veículos locais é, sim, um problema. Espera-se que essas instituições produzam pesquisa capaz de entrar nos debates centrais da área, enfrentar escrutínio externo e influenciar pesquisadores para além de sua própria rede. A publicação local pode complementar essa atividade; não pode substituir quase inteiramente a circulação internacional e ainda ser apresentada como evidência equivalente de pesquisa de ponta. Função social local e impacto científico internacional são contribuições diferentes, e uma não torna desnecessária a outra.
Também não devemos transformar o gênero textual em uma hierarquia automática. Livros e capítulos podem fazer contribuições fundamentais, sobretudo em tradições nas quais esses formatos ocupam papel central. Mas os formatos têm processos de seleção, descoberta e circulação diferentes. Um currículo composto por dezenas de capítulos em coletâneas da própria rede não fornece a mesma evidência de escrutínio independente que uma trajetória de publicação contínua em periódicos centrais e seletivos da subárea. Reconhecer que o periódico não determina sozinho a qualidade de um artigo não exige fingir que essa diferença desaparece.
Como ler um perfil acadêmico
Não proponho trocar a idolatria do Google Scholar pela idolatria do Semantic Scholar, da Scopus ou dos quartis. Quando examino um perfil acadêmico, tento começar com perguntas melhores:
- Os trabalhos pertencem realmente à pessoa? Procure homônimos, duplicatas e títulos fora da área.
- Em quais formatos ela publica? Artigos, livros, capítulos, anais e textos de divulgação cumprem funções diferentes.
- Onde os artigos aparecem? Verifique o periódico pelo ISSN e consulte diretamente as bases relevantes.
- Quem cita? As citações vêm de grupos independentes ou principalmente de orientandos, coautores e colegas próximos?
- Onde a atenção circula? Ela atravessa instituições, países, idiomas e tradições teóricas?
- A pesquisa participa dos debates atuais da subárea? Volume de produção não substitui relevância intelectual.
- O resultado muda entre bases? Uma diferença grande não fornece uma conclusão pronta: identifique quais publicações e citações a produzem.
- Qual é a data da consulta? Contagens e quartis mudam.
Para cuidar do próprio perfil:
- revise publicações adicionadas automaticamente;
- remova trabalhos de homônimos;
- una duplicatas apenas quando forem realmente versões do mesmo trabalho;
- corrija títulos, autoria e dados bibliográficos;
- mantenha ORCID, currículo Lattes e página institucional atualizados;
- deposite versões permitidas em repositórios confiáveis, com metadados completos;
- ao informar citações ou índice h, identifique a base e a data.
Esses cuidados melhoram a precisão do registro, mas não resolvem a questão substantiva. Um perfil perfeitamente limpo ainda pode documentar uma produção que raramente circula fora de seu ambiente imediato.
O que os números não conseguem decidir
Indicadores quantitativos são úteis porque condensam informação. Justamente por isso, também escondem informação. O total de citações elimina a origem das citações; o índice h elimina os extremos da distribuição; o quartil elimina as diferenças entre artigos; a indexação transforma uma decisão de cobertura em uma fronteira aparentemente natural.
Os princípios do Manifesto de Leiden continuam relevantes aqui: métricas devem apoiar, não substituir, avaliação qualitativa; diferenças entre áreas precisam ser consideradas; e os dados usados na avaliação devem permanecer abertos ao escrutínio (Hicks et al., 2015).
Não estou sugerindo que todas as avaliações sejam apenas subjetivas ou que todos os veículos sejam equivalentes. Há diferenças reais de rigor, seletividade, visibilidade e influência. Ignorar essas diferenças protege justamente os circuitos que conseguem produzir prestígio sem exposição externa. A solução não é abandonar os números, mas interpretá-los com uma pergunta clara. Criticar uma métrica é legítimo; descartá-la sem propor critérios alternativos, explícitos e igualmente sujeitos a escrutínio, apenas substitui uma medida imperfeita por opacidade. Em instituições públicas, essa opacidade pode ainda normalizar a acomodação intelectual e dissociar privilégios profissionais excepcionais do dever de produzir trabalho rigoroso e à altura dos recursos, da estabilidade e da confiança que a sociedade deposita nessas posições.
O número de citações mede a atenção registrada por uma base. Para entender impacto, ainda precisamos descobrir de onde essa atenção vem, até onde ela chegou e o que outros pesquisadores fizeram com o trabalho.
Quinhentas citações podem representar influência internacional ampla, circulação local intensa, erros de atribuição ou uma combinação das três. Sem olhar além do número, simplesmente não sabemos.
Alguns periódicos de referência
Para tornar a discussão menos abstrata, termino com alguns exemplos. A lista abaixo reflete sobretudo minha própria formação, em linguística formal e experimental, fonologia e aquisição de segunda língua. Ela não pretende representar igualmente todas as subáreas, não está em ordem de importância e certamente não é exaustiva. Todos os periódicos listados estavam em Q1 no SJR 2025, mas esse não é o único motivo para incluí-los: são veículos de circulação internacional reconhecida que publicam regularmente trabalhos centrais em suas respectivas subáreas.
| Periódico | Área aproximada |
|---|---|
| Language | Linguística geral; um dos principais periódicos da área |
| Linguistic Inquiry (LI) | Linguística formal, especialmente sintaxe e teoria gramatical |
| Natural Language & Linguistic Theory (NLLT) | Teoria linguística, sintaxe, morfologia e suas interfaces |
| Journal of Linguistics | Linguística teórica e descritiva com alcance geral |
| Glossa: a journal of general linguistics | Linguística geral, teórica e experimental; acesso aberto |
| Linguistics and Philosophy | Semântica formal, pragmática e filosofia da linguagem |
| Natural Language Semantics | Semântica formal e interfaces com sintaxe e pragmática |
| Journal of Semantics | Semântica formal e experimental, pragmática e interfaces |
| Phonology | Teoria fonológica |
| Journal of Phonetics | Fonética experimental e interfaces com a fonologia |
| Laboratory Phonology | Fonologia e fonética experimentais; acesso aberto |
| Journal of Memory and Language | Psicolinguística, processamento e representação da linguagem |
| Studies in Second Language Acquisition (SSLA) | Aquisição de segunda língua |
| Second Language Research (SLR) | Aquisição e processamento de segunda língua |
| Language Learning | Aprendizagem de línguas, bilinguismo e psicolinguística |
O quartil é um ponto de partida; reputação entre especialistas, seletividade, escopo e histórico de contribuições também importam. Semantics and Pragmatics, por exemplo, é um periódico importante em semântica formal, mas não aparece na base SJR 2025 que usei. Presença em uma base fornece informação; ausência não encerra a avaliação. Uma lista de periódicos Q1 e uma lista dos principais periódicos da área terão grande interseção, mas não serão idênticas. Cada subárea também terá seus próprios veículos centrais.
Esses também não são periódicos “nacionais” no sentido em que muitas revistas brasileiras são. Embora suas sociedades, editoras e sedes estejam distribuídas principalmente entre Estados Unidos, Reino Unido e Europa continental, seu escopo e sua comunidade de autores são internacionais. Eles publicam pesquisas sobre línguas e fenômenos de todo o mundo, assinadas por pesquisadores de muitos países. Ser brasileiro, trabalhar em uma universidade brasileira ou estudar dados do português e de outras línguas faladas no Brasil não impede ninguém de submeter um artigo. O que o artigo precisa fazer é mostrar por que aquele caso importa para uma questão mais ampla da subárea.
O custo tampouco explica a ausência generalizada. Em boa parte desses periódicos, é possível publicar pela rota convencional sem pagar taxa obrigatória; alguns são de acesso aberto diamante, sem cobrança para autores. Outros oferecem acesso aberto opcional ou adotam APCs cobertas por acordos institucionais, financiadores e programas de isenção. Essas políticas mudam e devem ser consultadas antes de cada submissão.4 Pode haver barreiras financeiras em casos individuais, mas elas não explicam por que a produção de uma área inteira quase nunca aparece em uma lista ampla de periódicos internacionais com modelos financeiros distintos.
Um pós-graduando não precisa estar pronto para publicar nesses periódicos amanhã. Mas deveria saber que eles existem hoje: ler o que publicam, entender quais perguntas ocupam a área e comparar esse universo com a bibliografia e os incentivos de seu próprio programa. Sem essa referência externa, é muito fácil confundir o topo do circuito que conhecemos com o topo da disciplina.
Copyright © Guilherme Duarte Garcia
Referências
Notas de rodapé
As contagens também mudam continuamente. Qualquer comparação empírica precisa registrar a data da consulta, definir como os autores foram identificados e, idealmente, disponibilizar os dados usados.↩︎
O índice foi proposto por Jorge Hirsch em 2005; veja o artigo original.↩︎
Como qualquer extensão que interage com o conteúdo de páginas abertas, ela também deve ser instalada depois da leitura de suas permissões e de sua política de privacidade.↩︎
Por exemplo, em 2026, Phonology passou a publicar artigos de pesquisa em acesso aberto e lista uma APC, mas a Cambridge também oferece acordos institucionais, descontos e isenções. Portanto, nem “todos cobram” nem “nenhum cobra” descreve corretamente o conjunto.↩︎